top of page
Buscar

Shakira e sua dança com os lobos

  • Foto do escritor: Sinestelas UFJF
    Sinestelas UFJF
  • 6 de mai.
  • 3 min de leitura

por Jhonatan Mata- Coordenador do Grupo Sinestelas

Shakira em seu show no Rio de Janeiro (Kevin Mazur / Getty Images)
Shakira em seu show no Rio de Janeiro (Kevin Mazur / Getty Images)

Três lobas gigantes - uma feita por drones no céu de Copa, outra projetada no palco e a própria Skakira em 1,59 m de carne e osso (além das milhões espalhadas pela areia) foram insuficientes para que uma parte da crítica reescrevesse seus pareceres pós-show (feitos ao que parece antes dele) a respeito da festa (da) latina. Apagando apenas a informação-aposta de público flopado (somamos mais de dois milhões uivando pra uma lua que foi um show a parte), insistiram numa suposta “ausência de narrativa”, num “concerto sem conceito”, tomando Gaga e Madonna como bastiões do storytelling. Obcecados com o pré-texto, se esqueceram completamente dos paratextos, que Genette tão bem define como os elementos que estão integrados e também os que circulam por fora de uma obra. Para além da cansativa aposta em rivalidade (também artística) feminina, queriam ver Broadway e uma “América” entre aspas, onde o combinado foi um majestoso Miss Universo (Brasil e Colômbia imbatíveis) feat Caravana Rolidei.


Shakira em seu show no Rio de Janeiro (Kevin Mazur / Getty Images)
Shakira em seu show no Rio de Janeiro (Kevin Mazur / Getty Images)

Para retomarmos os estudos de François Jost, as promessas de leitura de Shakira não vieram de uma história, mas de várias, construídas audiovisualmente com o público brasileiro ao longo de três décadas. Da Xuxa ao Groisman, do show de 5 reais em Uberlândia à banheira do Gugu, Shaki conhece nossa intimidade- e isso choka!Como uma loba (e não como uma deusa) se ancorou na adaptabilidade, na família e na resistência de subir no palco com a notícia de que o pai estava mal. Como uma loba ( e não como uma diva) investiu em socialização e espírito de equipe para sobreviver: com Anitta e um “hit(ual) quarup” lembrou que o mundo é o limite, mas que a favela está lá no alto e no caso de Copacabana isso é mais que uma metáfora. Com uma Betânia potente (+Unidos da Tijuca num clássico de Gonzaguinha), calibrou o uivo ao vivo, no primeiro “Todo mundo no Rio” transmitido para telas em tempo real, sem os band aids do delay. Com Caetano foi una película de Almodóvar. Com Ivete (e as bençãos de São Jorge Benjor) foi festa. Algo que para Darcy Ribeiro, chancela a narrativa de que nós, latinos, da cana de açúcar ao afeto, somos o “combustível do mundo”, em tudo o que isso traz de leveza e caos. Como lobo (guará mineiro) vivi uma experiência gratificante. Não apenas de fruição de cada canção. Mas- e sobretudo- por observar que a “efervescência coletiva”conceito do sociólogo Émile Durkheim ainda sobrevive, mesmo diante da frieza dos algoritmos.


Shakira em seu show no Rio de Janeiro (Kevin Mazur / Getty Images)


Ver muita gente se gravando, produzindo suas audiovisualidades (amadoras e profissionais) no durante, no pré e no pós, deu viço às vontades de pesquisa. Como uma loba ( e não uma celebridade inacessível) Shakira retribuiu ao Brasil uma lealdade difícil de se estabelecer com uma ilha de caramelos que uivam em português cercada de perros hispanohablantes. Sua narrativa foi fortemente ancorada em questões de gênero, de respeito mútuo entre os latinos nos seus embates cotidianos com os fantasmas da aculturação e na importância dos “laços sociais” de Wolton, tecidos pelas audiovisualidades- temas especiais e que imprimem um sentimento de alcateia entre os integrantes do Sinestelas.


Nós, “os latinos” somos imprevisíveis. Não fosse isso nem aqui estaríamos pra contar história. Inclusive essa- de quando lobas e lobos invadiram uma praia. E se recusando a ser a caça, comeram tudo a que tinham direito: ritmos, símbolos, espetinho de queijo coalho e discursos yankistas de uma crítica hiena, deslocada da família canidae.

 
 
 

Comentários


bottom of page