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Outlander: na fronteira da realidade romântica

  • Foto do escritor: Sinestelas UFJF
    Sinestelas UFJF
  • 9 de ago. de 2023
  • 10 min de leitura

por Sara de Moraes Bridi


Até que ponto um romance épico é capaz de retirar a realidade de uma comunidade de fãs? A série de TV Outlander, produzida pela Starz e inspirada na série homônima de livros parece ter encontrado essa tênue fronteira narrativa entre ficção e realidade.






Uma mulher corre desorientada pela floresta escocesa. A roupa em farrapos, barulhos estranhos ao longe e um homem idêntico ao seu marido cruza seu caminho. Ela pede ajuda e recebe uma ameaça de violência que só não acontece graças a um golpe certeiro de um hilander que a resgata e a leva para uma cabana. Lá, junto a outros que parecem fugir de soldados ingleses, está um homem próximo a lareira. Seus cabelos brilham como o fogo e suas belas feições são transpassadas pela dor de um braço deslocado. Providencialmente ela é enfermeira e coloca o braço do rapaz de volta ao lugar. A gratidão se transforma em amizade até que, sete episódios depois, evolui para um casamento arranjado que abre caminho para uma paixão avassaladora, capaz de dominar completamente os personagens e os que estão a suspirar do outro lado da telinha.

É possível sentir a eletricidade em cada toque, o arrepio na espinha a cada frase de efeito. Tudo é tão folhetinesco e, ao mesmo tempo, parece tão real… Esqueça o fato da heroína desta história ser uma enfermeira da 2ª Guerra Mundial que viaja no tempo para a Escócia de 1746 ou que, apesar de tudo o que sabemos sobre hábitos de higiene do século XVIII, ela encontra um belo escocês ruivo que ainda mantém todos os dentes na boca e o cavalheirismo no coração. Aqueles olhares, aquela química, tudo aquilo só poderia ser verdade… Poderia?

Existe um grupo de fãs da série denominado de shipper que nutre esperanças (e teorias) sobre a existência de um romance secreto entre os atores Sam Heughan e Caitriona Balfe com base na interpretação de cenas românticas dos atores, imagens e fotos de bastidores e uma boa dose de especulações. Tal como o casal protagonista da série enfrenta desafios quase intransponíveis para ficarem juntos, essas fãs estão dispostas a lutar por um amor que acreditam ser verdadeiro, inclusive contra um casamento, um filho e algumas namoradas.

Seria esta uma fuga da realidade por meio da felicidade plena, tal como expressa Edgar Morin? Seria uma consequência da baixa literacia midiática? Acontece que essas fãs, que expressam um conhecimento aprofundado da série, compartilham fanfics e legendam episódios antes de chegarem formatados para o Brasil teoricamente demonstram competência para lidar com as mídias. Todos estariam de fato neste patamar? São muitos os que confundem o que é trama e o que é realidade tal como o romance mescla elementos históricos das guerras pela independência da Escócia e dos Estados Unidos com um amor que transcende o tempo.


Uma forasteira do futuro

Para quem não conhece a trama (e não tem problemas com spoilers), Outlander conta a história de Claire, uma enfermeira que, após o fim da 2ª Guerra Mundial, viaja para a Escócia em busca de se reconectar ao marido, o historiador Frank Randall, de quem ficou distante por ambos servirem aos Aliados em diferentes frentes de batalha. Mas, em um de seus passeios pela pequena Inverness, Claire descobre uma antiga ruína druida e, ao tocar em uma de suas pedras, é transportada para o ano de 1743 — momento turbulento da história escocesa, no qual revoltosos estão prestes a travar uma batalha sangrenta contra os ingleses pela independência das Terras Altas. O homem incrivelmente parecido com o marido da heroína apresentado no início desse texto é Jack Black Randall, um Red Coat (como eram chamados os militares ingleses) impiedoso, ancestral de Frank, que subjuga escoceses com requintes de prazer sádico. A enfermeira acaba seguindo com o grupo de hilanders até o castelo de Leoch.

É nesse caminho que Claire conhece e cultiva uma amizade inesperada com Jamie, aquele rapaz da fogueira — um foragido das forças inglesas por um crime que não cometera. Ele, na verdade e um Senhor de Clã: James Alexander Malcom Mackenzie Fraser, um homem culto, excelente espadachim e guerreiro e, acima de tudo, um cavalheiro. Enquanto tenta tramar uma forma de voltar para seu próprio tempo, Claire se envolve em uma cilada armada por Jack Randall e acaba se vendo obrigada a se casar com Jamie para fugir do capitão inglês. É então que toda tensão romântica entre o casal explode na tela e fisga os amantes de uma boa história de amor.


Cena do episódio 7 (1ª temporada): O Casamento


Claire opta por continuar no passado com Jamie e passa a viver uma série de aventuras históricas: a rebelião jacobita e a batalha de Culloden, o esplendor da corte francesa do Rei Luis XV, a escravidão nos Estados Unidos, a resistência indígena e a guerra pela independência americana… Juntos, o casal enfrenta os obstáculos mais difíceis (e muitas vezes fantasiosos) em meio a fatos e personagens históricos reais. Cabe destacar aqui a produção primorosa que confere ainda mais realidade à história, com figurino e cenários exuberantes e bem cuidados, trilha sonora rica em ritmos folclóricos de todas as etnias envolvidas na trama e uma direção de elenco cuidadosa com os mínimos detalhes de atuação. Toda essa alquimia bem orquestrada arrebatou o coração de fãs que levaram sua fidelidade à série a diferentes níveis.

Sassenachs e Highlanders

O termo Sassenach é um anglicismo, derivado do gaélico “sassunnach”, que quer dizer saxão. A palavra é usada pelos escoceses de forma depreciativa para se referirem aos ingleses, mas na história é também o jeito carinhoso como Jamie se refere a Claire. E é dessa maneira que as fãs da série gostam de ser chamadas. Há sim alguns poucos highlanders, mas a maioria do público é feminino — resultado de uma estratégia bem-sucedida da Starz voltada para atrair públicos segmentados. De acordo com matéria publicada no G1 em 2014, a pré-estreia da série nas plataformas on-demand do canal contou com a audiência de 3,7 milhões de pessoas. No primeiro ano da série, a média de espectadores por episódio foi de pouco menos de 3 milhões. A chave para alcançar esse público específico foi o olhar feminino — além da personagem central da trama, e por vezes narradora, ser uma mulher, a presença de diretoras, produtoras e roteiristas mulheres é expressiva, especialmente nos episódios-chave, como é o caso de “O Casamento”, que contou com uma equipe quase que exclusivamente feminina (GERBASE, 2017).

O interesse por Outlander movimenta os apaixonados pela atração de diferentes formas. Só no Facebook são 652 grupos de fãs registrados. Dentre eles, esta pesquisadora e fã se propôs abraçar uma breve visão netnográfica sobre dos grupos dos quais participa há cerca de 4 anos: Outlander Brasil e o Outlander Frasers Ridge Brasil, que contam com 79,3 mil e 69,5 mil membros respectivamente, para compreender o grau de envolvimento dos fãs da série bem como seus diferentes níveis de literacia midiática. Vale ressaltar que existem grupos que reúnem grupos mais significativos de shippers (como é o caso do Outlander SIS Brasil que chega a prever em suas regras a expulsão de membros que contestem a narrativa do romance entre Sam e Cait). A escolha dos grupos acima citados se seu por estes reunirem uma amostra mais heterogênea desse fandom.

Em ambos os grupos há uma predominância massiva de mulheres, a maior parte com faixa etária concentrada entre os 31 e 50 anos (em torno de 47%, de acordo com pesquisa realizada nos grupos). O espaço é utilizado para trocar ideias, compartilhar episódios, impressões, organizar excursões à Escócia, apresentar fanfics e outros objetos artísticos, além de especular sobre a vida pessoal dos atores do show — uma produção, tal como observa Henry Jenkins em Cultura da Convergência (2009), que extrapola o simples consumo e ganha ares de cultura participativa. Além de análises e comentários sobre os episódios, há uma profusão de fotos dos personagens (especialmente de Jamie), edições de cenas, memes, histórias que resolvem de outra maneira determinado momento da trama.

Entretanto, uma boa parcela continua apenas na posição de espectador. Em enquete proposta nos grupos analisados, os que se classificam como apenas espectadores somam 53,5%, dos quais 40% assumem ter assistido aos episódios muitas vezes. 21,5% dos respondentes contam que interagem e comentam sobre a série no grupo frequentemente. Quanto a produção de conteúdo, 9% afirmam gostar de postar fotos e notícias relacionadas à atração e apenas 3% levaram o amor pela trama para um nível de produção criativa e passaram a criar vídeos, fanfics e outros trabalhos artísticos. Se Jenkins estiver certo sobre o fato da produção colaborativa e criativa produzida pela cultura de fãs auxiliar no desenvolvimento de uma literacia midiática, os dados acima podem, de certa forma, lançar luz sobre as disparidades de compreensão quanto aos limites entre realidade e ficção.

Antes de mergulhar um pouco mais no shipping agressivo adotado por alguns fãs da série, cabe enfatizar que, nos dois grupos, todos os respondentes compartilharam seu posicionamento de forma respeitosa, resultado de uma moderação ativa dos administradores dos grupos que têm buscado direcionar as energias de seus membros para um diálogo saudável. Mas já houveram momentos mais turbulentos, com defesas apaixonadas de teorias sobre um romance secreto entre Caitriona Balfe e Sam Heugan que não poderia ser revelado por questões contratuais. Nos primeiros anos da série, havia uma profusão de edições de imagens de bastidores da produção e vídeos, interpretações de “entrelinhas” de entrevistas e “mensagens secretas” supostamente deixadas pelos atores em seus perfis pessoais — tudo para corroborar com a teoria romanesca.


Nem mesmo o noivado da atriz, em 2017, acalmou os ânimos dos fãs que passaram a atacar Anthony McGill, produtor musical com quem Cait é casada desde 2019. Chegaram inclusive a divulgar a ideia de que o casamento seria mais uma jogada de marketing para ocultar o romance dos atores de Outlander. O conspiracionismo só se arrefeceu com o anúncio do nascimento do filho de Balfe, que aproveitou o momento de pandemia para manter a gravidez longe de mídias e holofotes.


Outro fato que esfriou as expressões mais extremadas dos fãs foi a declaração de Sam Heughan que, após sofrer, em 2020, uma série de ataques mais pesados — o primeiro o acusava de ocultar sua homossexualidade para extorquir dinheiro de fãs e o segundo, questionava seu isolamento no Havaí durante a pandemia — decidiu desabafar em sua conta no Twitter. No texto, relatou estar sofrendo, há seis anos, pelos constantes ataques de fãs a ele, a Cait, a sua família e qualquer pessoa que fizesse parte de seu círculo mais íntimo com “insultos, difamações, abusos, ameaças de morte, perseguições, compartilhamento de informações privadas e falsas narrativas” (HEUGHAN, 2020). Ele ainda denotou seu espanto ao constatar que todos esses abusos vinham de pessoas aparentemente comuns, com profissões regulares.

O posicionamento mais enfático dos atores e produtores da série quanto ao abuso invasivo de fãs pode ter sido um dos motivos para a virada no comportamento do público. Em enquete proposta nos grupos de fãs analisados, 48% dos que responderam disseram não acreditar que exista um relacionamento secreto entre os protagonistas de Outlander. Entre estes, 41% acham que a boa trama e atuação dos atores é a causa dessa impressão e 7% pensam inclusive na existência de uma jogada de marketing da produção da série que tenha gerado um buzz inicial sobre o assunto. Entre os 52% crentes no amor que transcende a ficção, a maior parte (43%) acha que aconteceu uma paixão no início das gravações, mas que esse relacionamento já acabou. 7% continuam a acreditar ser impossível tamanha química entre os atores ser só encenação e apenas 1% segue fiel à teoria da conspiração do romance secreto proibido por contrato com a produtora do show.

Chris Parnel, co-presidente da Sony TV, que produz a série para a Starz, em entrevista concedida a Entertainment Weekly em 2018, disse compreender a origem de uma base de fãs tão intensa e apaixonada. O problema estaria nos limites entre o que é saudável e o que é intrusivo: “Acho que muitas pessoas que o fazem [o shipping] vivem em um tipo divertido de mundo da fantasia. Vá em frente com o seu vício! Mas se chega um ponto em que é agressivo, ou dá um passo em direção ao assédio, é aí que sinto não ser saudável para a pessoa que faz isso e certamente não é para nosso elenco e equipe”. Resta ainda a este texto tentar entender os motivos para essa fuga através das pedras druidas para o reino do final feliz.

A idealização do amor e o final feliz

James Alexander Malcom Mackenzie Fraser. Não há fã de Outlander que não sinta um arrepio subir pela espinha com o simples pronunciar desses cinco nomes. O herói da trama traz em seu repertório uma série de ações e discursos capazes de fazer qualquer coração derreter, tudo isso envolvido em uma grande história de amor repleta de uma montanha russa de tragédias e pequenos finais felizes. O motivo dessa atração talvez possa ser explicado em uma obra que envelheceu tão bem quanto as boas histórias.


Edgar Morin demonstra em seu livro, Cultura de Massa do século XX (1997), que as ficções voltadas para o realismo acabam por estimular a identificação do espectador/leitor como herói. Ao utilizar o recurso da narrativa como uma história vivida, abre-se caminho para a confusão entre o que é realidade e o que é imaginação. A sofisticação das produções, em detalhes cada vez mais realistas, e as interpretações mais naturais retirariam o ator de sua condição de monstro sagrado para levá-lo à posição de sósia exaltado do expectador (p. 92).

Associado a esse herói simpático estaria o happy end — a felicidade merecida diante de uma provação que, nas condições normais de temperatura e pressão, caminhariam para o fracasso certo. Tal desfecho rompe com a tradição universal da tragédia, do mártir que, por meio de sua dor, expia as mazelas do espectador. Apesar de existirem obstáculos e sofrimentos, eles logo dão lugar a períodos de felicidade plena e, assim, ao tomar para si a pele do protagonista enquanto elemento realista, o espectador se sente merecedor de um happy end irreal. É nesse contexto, onde o conto de fadas encontra o realismo moderno, que milhões de fãs se projetam em Claire Beauchamp para idealizar o final feliz com seu príncipe encantado, Jamie Fraser.



Ainda existe a projeção dos personagens nos atores, que Morin classifica como olimpianos — as novas divindades do panteão da cultura de massa transformadas em vedetes por meio da informação. Esta também as humaniza e as aproxima do público (algo incrivelmente potencializado pelas mídias sociais). “Os olimpianos, por meio dessa dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação” (MORIN, 1997, p.107).

Em um universo onde a realidade das notícias e a fantasia das ficções se encontram em prateleiras tão próximas, e o virtual está disponível para interação irrestrita, especialmente os não-nativos digitais, por considerá-lo impalpável, podem se sentir tentados a ignorar instintos reprimidos pela norma social. Dessa forma, professoras e psicólogas, usando aqui os exemplos do desabafo de Sam Heughan, dão vasão, sob uma falsa impressão de anonimato, a um impulso descontrolado de fazer valer, por meio da coerção invasiva, suas próprias noções projetadas de realidade.

Analisar a relação entre Outlander e seus fãs pode ir muito além do simples entretenimento. Buscar entender quais as fronteiras entre o real e o imaginário nas ações dos interagentes dessa nova cultura participativa auxilia na compreensão da propagação da desinformação e quais as ferramentas necessárias para combatê-la. Como acreditar que a argumentação racional e a checagem dos fatos podem levar a verdade para o reino dos afetos? Quando a ideia de realidade se processa pela afinidade com a informação, talvez um desabafo sofrido, ou a repreensão da mãe de um bebê recém-chegado sejam geradores de nova carga de empatia capaz de trazer os forasteiros da fantasia digital de volta à existência concreta.


Referências:

GERBASE, C. Outlander: um olhar feminino sobre a sexualidade. RuMoRes, [S. l.], v. 11, n. 22, p. 116–135, 2017. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/Rumores/article/view/133656. Acesso em: 18 out. 2022.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

MORIN, Edgar. Cultura de massas do século XX: neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.


 
 
 

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